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Artigo 02 DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação - v.2  n.2   abr/01                            ARTIGO 02

Serviços Web e a evolução dos serviços em TI
Web services and the IT services evolution
por Marcello Peixoto Bax e George Jamil Leal

Resumo: O tema Serviços Web (ou web services) tem sido amplamente discutido ultimamente na literatura comercial e científica ligada à Internet. A partir de uma perspectiva de evolução histórica dos serviços implementados através do emprego das tecnologias da informação e comunicação, discute-se neste artigo como estes serviços web se integrarão e como serão aplicados para estruturar o conceito de e-business. Apresenta-se os princípios básicos de uma arquitetura voltada para serviços web e as tecnologias padrão que estão surgindo sob coordenação do W3C e que suportarão a implementação desta arquitetura.
Palavras chave: Serviços Web; Internet; TICs; e-Business; W3C

Abstract: The web service concept has been widely discussed lately in internet-related commercial and scientific literature. This article will discuss, from an IT service evolution perspective, how web services will be integrated and applied to structure the e-business applications. The fundamentals of a service-oriented architecture will be presented, as well as the standard technologies that are appearing under the coordination of the W3C and will support the implementation of such architecture.
Keywords: Web Services; Internet; ICTs; e-Business; W3C
 

1. Introdução
A evolução exibida pelas Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) pode ser referenciada como uma das mais marcantes ocorridas em segmentos de oferta de serviços na história moderna. Um roteiro que parte do computador central, o "mainframe", que há alguns anos suportava através de conexões via terminais, o processamento de dados[1]  e que nos leva aos atuais sistemas baseados em Internet que apóiam o trabalho de equipes móveis em escala geográfica mundial, pode ser a orientação para que se analise este inigualável processo.

Numa referência antológica, feita há cinco anos atrás, Negroponte (1995, p. 113), opinou sobre a necessidade de uma forma de comunicação mais ágil, que explorasse os latentes recursos da tecnologia da informação, hoje atendidos em grande parte pelos serviços tornados disponíveis pelo acesso à rede Internet :
 

"Nós raciocinamos hoje apenas em termos do que tornaria mais fácil para as pessoas a utilização do computador. Pode ser que tenha chegado a hora de perguntar o que tornaria mais fácil para os computadores lidar com seres humanos. Por exemplo: como é possível conversar com pessoas, quando nem sequer se sabe que estão presentes? Você não pode vê-las e nem sabe quantas são. Será que estão sorrindo? Falamos desejosos sobre interações homem-máquina, sistemas dialógicos e, no entanto, estamos dispostos a deixar no escuro total um dos participantes deste diálogo. Está na hora de fazer com que os computadores vejam e ouçam."


Podemos afirmar que a fusão entre os flexíveis serviços tecnológicos hoje existentes são fruto de uma oportuna união entre as necessidades de organizações empresariais e governamentais, envolvidas num sistema de redes de serviços, com a oferta deste ambiente informacional, amplamente instalado e em contínuo processo de desenvolvimento.

Segundo Castells (1999, p. 87):
 

"Uma nova economia surgiu em escala global nas últimas duas décadas. Chamo-a de informacional e global para indicar suas características fundamentais e diferenciadas e enfatizar sua interligação. É informacional porque a produtividade e a competitividade de unidades ou agentes nessa economia (sejam empresas, regiões ou nações) dependem basicamente de sua capacidade de gerar, processar e aplicar de forma eficiente a informação baseada em conhecimentos. É global porque as principais atividades produtivas, o consumo e a circulação, assim como seus componentes (capital, trabalho, matéria-prima, administração, informação, tecnologia e mercados) estão organizados em escala global, diretamente ou mediante uma rede de conexões entre agentes econômicos. É informacional e global porque, sob novas condições históricas, a produtividade é gerada, e a concorrência é feita em uma rede global de integração. E ela surgiu no último quartel do século XX porque a Revolução da Tecnologia da Informação fornece a base material indispensável para esta nova economia."


Ou ainda, em Dertouzos (1997, p. 38), vemos a descrição desta nova infra-estrutura, que objetiva o transporte da informação:
 

"Da mesma forma, o Mercado da Informação se organiza a partir de uma infra-estrutura comum, feita de todas as ferramentas e serviços informáticos que permitam a suas múltiplas atividades funcionar com eficiência e praticidade. Essa infra-estrutura será distribuída por todos nós, sem que uma única organização a controle ou possua. Vai transmitir dados, voz, texto e imagens de raios X de um caso grave de asma, negociando automaticamente através de provedores de transmissão que ligam  - com cabos, linhas telefônicas, satélites ou ondas de rádio - os computadores do posto médico ao laboratório de radiologia e ao consultório do médico."


2. Um caminho tecnológico
Do gigantesco computador central, o mainframe, oriundo dos primeiros experimentos com máquinas processadoras de cálculos do pós-guerra, partimos para os computadores de porte médio, que permitiram às organizações a posse de seus próprios sistemas processadores de dados, em virtude de serem operativos em menores instalações e de custo inferior às primeiras máquinas comerciais.

Os minicomputadores levaram consigo a semente do que seria a primeira onda de descentralização da TI, demandando que as organizações não mais possuíssem apenas pessoal de preparação de dados - o que até então ocorria - mas de desenvolvimento de soluções. Esta formação levou o mercado a fornecer recursos de hardware e software para suporte deste novo cenário de trabalho.

Daí surgiram demandas por modelos flexíveis de processamento em empresas, que tanto visavam a extrair toda a possibilidade de serviços dos recursos tecnológicos, como permitir a montagem de estruturas de fornecimento de outros novos, apoiados pela tecnologia.

O próximo passo ocorreu com a introdução dos microcomputadores, através do lançamento do "revolucionário" Personal Computer em 1981, pela IBM. Este fato, inédito na estratégia da maior empresa de informática da época, iniciou uma tendência de descentralização que permitiu a montagem de estruturas ágeis de processamento local de informações por parte de departamentos empresariais, lares e escritórios empresariais. Citações ao "computador departamental" eram habituais nos anúncios publicitários da época.

2.1. O surgimento das redes
Estas unidades foram, em seqüência, integradas na forma de redes de computadores, que visavam o compartilhamento de recursos entre diversas máquinas, bem como de possibilitar a criação de uma arquitetura de processamento de aplicações que permitisse a distribuição do processamento - isto é, cada nó desta nova rede de computadores interligados ofereceria aos seus usuários o poder de realizar uma parcela importante das tarefas de fluxos e processamento de informações para a aplicação em questão.

Em paralelo, ocorre a popularização o uso da rede Internet, recurso que, na época, ainda era concentrado no meio acadêmico e militar. O serviço Web (ou WWW[2]) e a flexibilização dos órgãos controladores da rede para que se desenvolvesse seu uso comercial são decisivos para tal acontecimento.

2.2. O modelo cliente-servidor
Este fato propiciou inovações importantes na arquitetura das aplicações, através da criação de novas alternativas de serviços, sendo a afirmação do modelo cliente-servidor merecedora de destaque. Neste caso, para processamento de uma aplicação distribuída, o usuário de uma rede[3] necessita ter em sua máquina um programa cliente que executará as funções de interface com o usuário e de chamada de serviços, que serão executadas por um servidor com quem se conecta quando necessário.

Este modelo de processamento, hoje encontrado nos serviços de bancos de dados, aplicações de groupware e Internet, entre outras, apoiou a criação de uma arquitetura computacional baseada em protocolos de comunicação especiais que possibilitam a implementação de novos serviços, atendendo o que é demandado pelas organizações. Assim a difusão das redes prosseguiu. Com a popularização da Internet nota-se principalmente a introdução organizacional do correio eletrônico estruturado em torno do serviço Web.

O comércio eletrônico é considerado um exemplo da nova tendência de dinamização dos negócios entre organizações, e é visto por muitos como a possibilidade do surgimento de uma perspectiva sócio-econômica diferenciada, como vemos em Drucker (2000, p. 112-126) :

"O comércio eletrônico representa para a Revolução da Informação o que a ferrovia foi para a Revolução Industrial; um avanço totalmente inusitado, inesperado. E, como a ferrovia de 170 anos atrás, o comércio eletrônico está gerando um ‘boom’ novo e distinto, provocando transformações aceleradas na economia, na sociedade e na política."

2.3. Evolução das aplicações e serviços
Os serviços web[4], aplicações que comunicam pela Internet, implementadas de forma flexível e fracamente acoplada, estão tendo um papel crescente nas interações entre empresas por meio eletrônico. Estas aplicações focalizando-se, neste início da evolução do e-business, principalmente na automatização das cadeias de fornecimento entre empresas, constituindo redes de negócios tipo Business-to-Business (B2B).

Nota-se que algumas empresas já estão envolvendo suas aplicações pré-existentes[5], sistemas que acessam bancos de dados ou sistemas de transação comercial, de uma camada especial (wrapper) para poder, rapidamente, oferece-las como serviços pela Internet (Burbeck, 2000). Tem-se assim o início da tendência de aparecimento dos ASPs (Aplication Service Providers). Ao mesmo tempo, novas aplicações tais como leilões eletrônicos, e-marketplaces, estão sendo desenvolvidas e oferecidas como serviços na web. Ou seja, pode-se esperar que o comércio eletrônico (ou mais genericamente o e-business) se baseará em um modelo orientado a serviços oferecidos inter-empresas, situado num nível de abstração superior e que adicionará flexibilidade ao modelo cliente-servidor (que se beneficiou largamente da metodologia de análise, concepção e programação orientada à objetos).

Para funcionarem bem em conjunto, de forma flexível e dinâmica, os serviços precisam compartilhar princípios organizacionais que, juntos, constituem uma Arquitetura Orientada a Serviço - “Service-oriented Architecture” (SOA). Esta arquitetura focaliza-se em como os serviços são descritos e organizados dinamicamente, propiciando descoberta e uso automáticos. Excluem-se aqui sistemas cujas interações são acopladas manualmente de forma rígida, como é o caso nas aplicações de EDI (Electronic Data Interchange).

Para que a descoberta automática seja factível, uma coleção de serviços precisa ser organizada em uma hierarquia de categorias baseadas em o que o serviço faz e como ele pode ser acionado por outro serviço. Segundo BURBECK [Burbeck, 2000] e vários outros autores, acredita-se que estas taxonomias serão mantidas e disponibilizadas por serviços de categorização, ou agenciadores (brokers), análogos ao que hoje conhecemos para a organização de informações na Web, como o Yahoo! ou o Open Directory da Netscape.

3. Um novo modelo de desenvolvimento orientado à serviços
Novos negócios implementados a partir da oferta de serviços pela Web vão surgir diariamente, impulsionando uma categoria diferenciada de empreendimentos, que muitos identificam como pertencentes a uma "Nova Economia". Pode-se afirmar, como em JAMIL (2001, p. 510-540), que um novo modelo de aplicações está surgindo, apoiado no desenvolvimento de tecnologias, como as que abordaremos nesta Seção. Este novo modelo gerará inovadores empreendimentos baseados em serviços web (do inglês web services).

Com efeito, neste momento o caminho em direção a uma Web mais semântica[6] está sendo pavimentado pelo W3C e influenciado pelas maiores empresas do setor de informática hoje, como Microsoft, IBM, HP, dentre outras[7]. Estas empresas não param de submeter proposições ao W3C, principal organismo de padronização da Web (ver w3c.org). As próximas versões das aplicações Web que visam o comércio eletrônico serão mais inteligentes, contexto-conscientes e semânticas, podendo atuar de forma mais pró-ativa. Estas aplicações se constituem de serviços web, ou seja, serviços dotados de grande flexibilidade de funcionamento em redes. Estes serviços serão os agentes estruturais das próximas versões da Web.

Enquanto no modelo cliente-servidor, um servidor é uma entidade única esperando para realizar uma tarefa, um serviço web distingue a tarefa a ser executada da entidade (ou entidades) que a executará. Pode haver várias entidades, cooperando pro-ativamente para atingir um objetivo único. Tem-se um modelo pro-ativo de aplicações, onde um serviço tenta conexão com outros serviços, procurando-os através de diretórios de registros, fazendo chamadas e interagindo dinamicamente com múltiplos parceiros a fim de construir a lógica da aplicação.

Segundo Rawn Shah, editor chefe do website sobre web services da IBM (Shah, 2001), este novo modelo em surgimento se caracteriza, essencialmente, por comunicações do tipo ponto-a-ponto (peer-to-peer). Em relação ao modelo orientado à objetos (OO)[8] que suporta atualmente o desenvolvimento da maioria das aplicações, uma diferença fundamental é o uso de formatos XML para definir a interface entre os componentes ou objetos.

Esta comunicação inter-componentes implementada com XML permite que os detalhes das interfaces de comunicação entre os processos sejam descobertos em tempo de execução (ou conexão), ao invés de especificados rigidamente em tempo de concepção, o que reduz substancialmente a flexibilidade das aplicações.
Assim, em termos históricos, evoluímos das aplicações monolíticas em mainframes, para o modelo tipo cliente-servidor das 2 últimas décadas (distribuído localmente em redes locais) impulsionado pela “democratização” das LANs. Agora iniciamos a compreensão de um novo modelo com características próprias, globalmente distribuído e orientado à serviços (dos web services).

Ainda segundo Rawn Shah, esta evolução revela a necessidade humana pela criação de aplicações cada vez mais dinâmicas. O mundo está cada vez mais complexo e a tecnologia acelera esta complexidade a ritmos inéditos na história. Quanto mais ágeis as aplicações, mais chances de sobreviver. Nota-se que, até o fenômeno da globalização com as aplicações funcionando e comunicando através da Internet, o aspecto “agilidade” do software não era tão focalizado. Novas idéias sobre concepção de sistemas apontam para um futuro de aplicações mais dinâmicas, que mudam com a evolução do seu ambiente, das empresas nas quais atuam, e dos parceiros com os quais interagem (Shah, 2001).

3.1. O que são serviços web? princípios da arquitetura SOA
A Fig. 1 mostra o esquema básico de uma arquitetura SOA. As entidades que interagem são os Solicitadores (serviços usuários de outros serviços), os Provedores e os Agenciadores.
Um provedor (provider) de serviços publica a disponibilidade de seus serviços e responde a requisições de uso dos serviços publicados. A operação de publicação (publish) permite ao provedor registrar suas habilidades e seus requisitos de interface junto a um agenciador de serviços.
Um agenciador (broker) de serviços registra e categoriza os provedores de serviços e oferece serviços de pesquisa. A operação de busca (Find) permite que o solicitador encontre o serviço desejado junto ao agenciador.
Um solicitador (requestor) usa um agenciador para encontrar o serviço que precisa e conecta-se ao provedor para utilizar o serviço. A operação de acoplamento (Bind) permite ao solicitador do serviço usar o serviço encontrado.


Figura 1 - interações em uma Arquitetura Orientada a Serviços.

Para suportar estas operações, a arquitetura SOA requer descriptores de serviços. Estes descriptores especificam características semânticas do serviço e do provedor do serviço. O agenciador usa tal informação para categorizar o serviço e o solicitador a usa para casar seus requisitos com os do provedor e do serviço.

A implantação de tal arquitetura em nível global exigirá a adoção de padrões que já estão sendo desenvolvidos e submetidos para certificação pelo W3C. Todos estes padrões estão sendo baseados na linguagem XML. Três destes padrões merecem destaque.

Verifica-se em GARTNER GROUP (2001, p. 8) e em IBM (2001) a citação ao padrão UDDI - Universal Description, Discovery and Integration - um protocolo que permite a publicação[9] e a pesquisa de um serviço, baseando-se no fato que, em breve, diversos destes serviços estarão sendo ofertados na rede. Além disto, encontra-se nas mesmas fontes a citação ao protocolo SOAP - Simple Object Access Protocol - que se baseia no padrão de representação de dados XML - eXtensible Markup Language. Este protocolo visa a prover meios de interação entre aplicações remotas, usando suas referências na Internet. Ambos são mostras das tecnologias que irão fundamentar a próxima versão de implementações na Web.
Outro padrão central para o desenvolvimento atual dos serviços web e a WSDL - Web Services Description Language -, uma gramática XML para especificação das propriedades de um serviço web, tais como: o que ele faz, onde está localizado e como realizar uma chamada a ele (ou um acoplamento ou bind). No momento em que dois serviços equivalentes são capazes de se anunciar na rede de uma maneira padronizada e neutra, uma aplicação poderia teoricamente escolher entre eles baseando-se em critérios tais como preço e desempenho. Para saber mais sobre WSDL ver (Glass, 2001).

3.2. Importância da Flexibilidade para as aplicações B2B
A Internet por ser considerada fundamentalmente um novo fator de inovação nos modelos de negócios, criando para as empresas uma espécie de corrida às armas. Esta corrida é caracterizada por um ciclo de retro-alimentação no qual novas armas criam novos problemas que, por sua vez demandam o desenvolvimento de outras novas armas. Hoje, a velocidade de adoção de um novo modelo de negócios é certamente um fator que aumenta as chances de sucesso de uma empresa. Segundo Burbeck em (Burbeck, 2000), pode-se considerar 3 cenários para as infraestruturas de colaboração de serviços B2B:
 

* Acoplamento rígido, estabelecido em tempo de concepção: A aplicação conhece os detalhes precisos do serviço com o qual vai colaborar porque este foi acoplado durante a concepção. Assim, a aplicação sabe exatamente como interagir com o serviço;

* Acoplamento dinâmico a colaborador pré-estabelecido: A aplicação sabe como solicitar a um agenciador por um serviço específico, isto porque o programador codificou uma consulta específica a ser feita ao agenciador. Entretanto detalhes da interação dependem da descrição do serviço retornada pelo agenciador em tempo de execução;

* Acoplamento dinâmico e escolha dinâmica do colaborador: A aplicação sabe a semântica e as chamadas da API do serviço a ser usado, no entanto consulta um agenciador com um padrão de busca que permite o retorno de uma série de alternativas. A aplicação escolhe então um serviço da lista em tempo de execução.


Atualmente nos estágios iniciais do comércio eletrônico as aplicações estão focalizadas nos dois primeiros cenários. Entretanto o terceiro cenário é o mais flexível e adaptativo; é o que mais se aproxima da configuração necessária para a constituição da base das empresas em rede, caracterizadas por Castells (1999, p. 190) nos seguintes termos:
 

... os sistemas interativos de computadores, que até então limitavam-se às redes locais, tornaram-se operacionais em redes remotas, e o paradigma computacional passou da mera conexão entre computadores à computação cooperativa, independentemente da localização dos parceiros interagentes.


3.3. Importância da Semântica
A semântica dos serviços, ou seja, o que eles fazem, ou o significado dos dados que manipulam é de importância vital para que cada serviço da rede de colaborações faça a coisa certa. Como confiar que um serviço fará a coisa certa antes de ser utilizado? E como decidir isso na velocidade da Internet?

Na modelagem OO os acoplamentos são decididos em tempo de concepção e realizados em tempo de execução com base na adequação das interfaces dos objetos comunicantes. Esta adequação envolve essencialmente a checagem dos tipos de dados dos argumentos da mensagem e do seu retorno. Este processo pode ser suficiente para a concepção de sistemas controlados por uma mesma instituição, onde os objetivos e detalhes técnicos são compartilhados pela mesma equipe de desenvolvimento. Porém em uma configuração onde vários milhares de serviços são oferecidos por milhares de empresas diferentes, a simples adequação entre mensagens não será suficiente para se deduzir a semântica de um serviço, garantindo que determinado serviço executará da forma esperada, do ponto de vista do negócio.

Uma solução seria deixar para o ser humano decidir qual serviço deveria se comunicar com outro serviço, especificando a colaboração em tempo de concepção (o que já é feito em OO com padrão CORBA). Porém, com visto anteriormente, o sucesso dos serviços B2B depende de acordos de conexão não pré-fixados e de escolha flexível de colaboradores.

Uma outra solução seria a utilização de categorias criadas por especialistas humanos que determinam a semântica dos serviços nelas dispostos. As categorias precisam ser precisamente criadas de forma que, se um determinado serviço pertence a uma categoria, então tem-se todas as informações necessárias para a busca e o acoplamento com o serviço descrito. Esta solução parece ser a mais adequada visto que os aspectos flexibilidade e dinâmica são cruciais para as aplicações tipo B2B.

3.4. Princípios organizacionais para concepção de serviços web
Uma economia de serviços colaborativos, como aquela descrita em DRUCKER (2000, p. 112-126), consistirá de vários provedores e usuários de serviços trocando informações pela Internet, com capacidade de funcionar como uma unidade em tempo real, em escala planetária, Castells (1999, p. 111).

Entretanto, como mostrou a popularização e evolução da Web alcançada principalmente graças à simplicidade de representação das informações[10] e de seus protocolos de comunicação, tal economia só se tornará realidade quando dispusermos de princípios e estruturas, capazes de tornar o processo como um todo compreensível para indivíduos e grupos sociais e de negócios que precisam integrar-se globalmente. De forma a privilegiar a flexibilidade e dinâmica das interações, tais princípios básicos deverão poder ser aplicados tanto em tempo de concepção quanto em tempo de execução.

Importante notar que a concepção de software (design) sempre foi ao mesmo tempo uma questão humana e uma questão de máquina. Ou seja, é preciso criar princípios organizacionais técnicos que considerem a maneira e grau em que as pessoas se sentem (mais ou menos) confortáveis quando pensam sobre sistemas em termos destes princípios técnicos.
Burbeck em (Burbeck, 2000) exemplifica isto de forma clara:
 

... quando do desenvolvimento das linguagens de terceira geração a invenção da sub-rotina[11] (ou função) permitiu aos programas serem subdivididos em unidades funcionais. A partir dessa inovação técnica, surgiram as metodologias de concepção e análise que se utilizaram da decomposição funcional, melhorando a modularidade e facilitando o processo de concepção de sistemas cada vez mais complexos.
A noção de objeto[12], que combina funções e dados em uma mesma unidade encapsulada, introduziu novos construtos organizacionais técnicos, tais como as noções de classe, herança e polimorfismo. Estas inovações deram origem as novas metodologias OO, técnicas de análise e práticas de concepção. No início (fim dos anos 80), eram consideradas pelos mais céticos mais como práticas de decomposição funcional ligeiramente repensadas e, sobretudo, renomeadas (os programas viram objetos, as chamadas de procedimento viraram mensagens, as funções viraram métodos, etc.). Posteriormente com a prática e a evolução das ferramentas de concepção tornou-se claro que juntos os novos princípios representavam algo fundamentalmente diferente. A vantagem principal foi promover uma maior reutilização de código (bibliotecas de classes de objetos). Assim, as classes são organizadas em hierarquias e ferramentas permitem navegar de forma que as bibliotecas de classes tornam-se facilmente acessíveis para programadores e analistas.


A partir desta ótica, percebe-se que serviços web representam uma nova forma de processamento computacional que requer novos princípios técnicos de organização. Cada serviço individual, diferentemente de funções e objetos, é concebido para satisfazer as regras de negócios de uma empresa enquanto colaboradora com aplicações ou serviços de outras organizações. Assim um conjunto de serviços precisa servir a um constituinte de indivíduos bem mais largo do que a equipe de profissionais técnicos dentro de uma única organização.

Assim, uma descrição simples dos serviços disponíveis é impraticável devido à escala da Internet e porque o conjunto de serviços disponíveis muda constantemente. A questão organizacional central então é como organizar e procurar por serviços quando a dinâmica econômica destes vai muito além da área técnica de atuação de programadores e analistas. A abordagem que funciona para funções organizadas em APIs é a documentação das chamadas que são realizadas a estas funções. Em OO tem-se uma hierarquia de classes navegáveis. Ambos requerem muita intervenção humana e centralização do controle além do que pode ser esperado para os serviços B2B.

Como a escala e o dinamismo do conjunto de serviços B2B assemelha-se à escala e ao dinamismo da Web, Burbeck sugere que possíveis soluções para os problemas de como organizar e buscar por serviços automaticamente deveriam se inspirar dos serviços existentes hoje que organizam páginas Web. Essa linha de raciocínio indica o surgimento de entidades agenciadoras de serviços que promoverão a organização e a categorização de serviços disponibilizados por provedores de serviços. Estes serviços agenciadores competirão entre si baseando-se em diversos fatores de qualidade, tais como a escolha da melhor taxonomia para uma determinada indústria, na atualização de seus diretórios de informações facilitadoras de negócios como, por exemplo, dados indicadores da qualidade da prestação de serviços, etc. Exatamente como entidades como o Yahoo! ou o Altavista emergiram para organizar páginas web.

Estes serviços de categorização são os agenciadores representados na Fig. 1. Provedores de serviços irão publicar seus serviços em um ou mais agenciadores. Usuários de serviços (solicitadores), sabendo a categoria de serviços necessários, solicitam aos agenciadores a lista de serviços naquela categoria.

O que é publicado, solicitado e categorizado é a descrição do serviço no formato de um documento XML que descreve informações institucionais sobre o provedor, a semântica do serviço ofertado e as chamadas à API do serviço. Descrever a API de um serviço é algo relativamente simples, o processo já é conhecido em OO com o uso da linguagem IDL (Inteface Definition Language). A descrição semântica do comportamento do serviço deve ser legível ao ser humano, mas também permitir busca automática e uso por outros serviços. Documentos XML têm esta vantagem de ser compreendido por humanos e por programas.

3.5. Descrevendo serviços
Neste novo modelo orientado à serviços, a habilidade de descreve-los tem papel central para o sucesso de sua publicação para uso, sua categorização precisa, e suas possibilidades de busca correta para a satisfação de uma necessidade. Assim, as descrições dos serviços constituem o meio lógico pelo qual se dá a troca de informações que possibilitam a publicação, a descoberta e o acoplamento entre serviços.
Burbeck (Burbeck, 2000) descreve os requisitos de alto nível destas descrições:
 

* A descrição de serviços deve ser feita em linguagem XML. Elas precisam ser ao mesmo tempo legíveis para humanos e processadas por programas. Precisam ser extensíveis, uma vez que a evolução dos serviços web não pode ser prevista em todos os seus detalhes;

* As descrições de serviços devem prover toda a informação semântica necessária aos solicitadores para estes verificarem se os requisitos serão satisfeitos e aos agenciadores para estes decidirem sobre a categorização precisa do serviço em sua taxonomia;

* As descrições devem ainda possibilitar a especificação de requisitos não-funcionais. Segurança, autenticação e privacidade importantes para garantir a troca de informações necessárias para o consumo do serviço e questões contratuais.


4. O business por trás dos serviços web
Os negócios por trás do uso das informações e serviços de e-business serão caracterizados por vários aspectos que podem ser analisados à luz do papel que tem cada sistema como provedor, solicitador (usuário), ou agenciador de serviços para terceiros.

4.1. O negócio de provimento de serviços
Expor o ambiente interno de tecnologia de informação para o mundo externo estabelecendo uma relação de negócios mais próxima com clientes, fornecedores e parceiros.

Cada provedor terá que decidir quais serviços serão expostos, como estabelecer o compromisso entre segurança e facilidade de acesso, como precificar os serviços, ou, se são gratuitos, como tirar benefícios diretos ou indiretos de sua exploração. Devem também decidir em que categorias de serviços poderão ser registradas nas listas taxonômicas dos agenciadores e que tipo de Acordo Contratual serão exigidos dos solicitadores para a utilização de um serviço.

Serviços podem combinar funções de sistemas legados ou novos softwares concebidos para atuarem como serviços. Entretanto, novos serviços podem constituir-se apenas de scripts de colaboração entre serviços providos interna ou externamente. Pode-se esperar, com a emergência dessa nova economia de serviços, que novas oportunidades aparecerão pouco mais que a orquestração e delegação de serviços já disponíveis.

Empresas provedoras compartilharão o desejo comum de registrar seus novos serviços com um ou mais agenciadores específicos (ou genéricos), a fim de anunciá-los para a audiência de solicitadores mais apropriada. Novas oportunidades aparecerão prover serviços capazes de auxiliar este tipo de submissão de registro.

4.2. Usando serviços
Segundo Burbeck (Burbeck, 2000), na economia em rede as razões para as empresas usarem serviços web serão, em geral, tão variadas quanto aquelas que as levam a usar as TICs para otimização de seus processos. Nota-se, entretanto, que a principal aplicação dos serviços web hoje está na integração de cadeias de fornecimento entre empresas e na automatização dos processos de compras (procurement).
Pode-se esperar a abertura de novas oportunidades de terceirização de tarefas especializadas que são hoje executados no seio de aplicações monolíticas. Haverá o interesse na quebra destas aplicações internas às organizações em diversos serviços que então terão maior potencial de especialização, personalização (conhecerão melhor os clientes) e exploração comercial. Este tipo de comportamento já pode ser verificado na construção de arquiteturas de software para grandes websites, e no próprio surgimento do conceito de ASP.

Importante para os usuários de serviços é o grau em que estes serão escolhidos estaticamente pelos analistas/programadores em tempo de concepção ou escolhidos automaticamente (formando estruturas muito mais dinâmicas) em tempo de execução. Mesmo que a utilização inicial seja largamente estática, a possibilidade de escolha dinâmica deixará em aberto questões do tipo: como escolher o melhor provedor e como avaliar a qualidade do serviço oferecido. E ainda mais importante, como avaliar o risco de se expor às falhas dos provedores de serviços? e quais técnicas evoluirão no sentido de reduzir e controlar este risco?

4.3. O negócio de agenciamento de serviços
Serviços agenciadores serão responsáveis pela criação e manutenção de taxonomias, pela avaliação das informações que descrevem os serviços e o registro de serviços em categorias, provendo possibilidades de busca rápida destas informações para as partes interessadas.

Espera-se que esta nova economia em rede abra diversas oportunidades de negócios para vários tipos de agenciadores. Alguns serão conhecidos pela qualidade de sua taxonomia, pela riqueza de funcionalidades de buscas muti-atributos, outros oferecerão altíssimo nível de confiança, garantindo a negociação entre as partes envolvidas, por exemplo, propondo aquisição de seguros especializados. Alguns oferecerão um vasto espectro horizontal de serviços e outros se especializarão em determinado tipo de indústria ou setor em profundidade. Além disso, da mesma forma que temos hoje meta-buscadores de páginas e produtos na Web, haverá também agenciadores de agenciadores.

Certamente haverá competição pela maior qualidade das taxonomias que maximizam a facilidade em se encontrar um determinado serviço. Quanto maior a lista de serviços registrados, mais solicitadores irão procurar usar o agenciador, e assim, maior o valor em se ter um serviço novo registrado no agenciador. Esta dinâmica circular de retorno positivo fará com que os novos negócios se focalizem em aumentar suas presenças no mercado (no market-share) ao invés de se focalizarem em receita à curto prazo.

Como um subproduto do casamento entre solicitadores e provedores os agenciadores poderão acumular dados sobre oferta e demanda. Dados sobre a utilização de serviços terão um valor intrínseco. Os agenciadores estarão bem posicionados para fornecerem dados de marketing que podem ser vendidos a provedores e solicitadores. Dados desta natureza poderão estar disponíveis gratuitamente ou fornecidos como parte em serviços de consultoria.

5. Considerações Finais
A revolução dos PC's nos anos 80 aconteceu apesar dos críticos que achavam que um PC não era “coisa séria”. Então as redes locais conectaram os PCs; e os céticos pensavam que a forma como a TI era implementada não mudaria. Então os programas evoluíram de banco de dados orientados a arquivos (p.ex, dBase) para aplicações cliente/servidor com banco de dados relacionais. Certo, mas as aplicações cliente/servidor ainda eram essencialmente aplicações departamentais. Então a revolução da Internet nos anos 90 interconectou praticamente todos os sistemas sobre a terra e houve mudança no uso da TI corporativa; ótimo para catálogos eletrônicos e compras on-line. A TI agora está permitindo que aplicações sejam facilmente concebidas através de uma rede de negócios entre empresas; o que estarão dizendo os céticos?

Procurou-se descrever neste artigo o estado da arte em termos de aplicações do tipo e-business, principalmente aquelas do tipo B2B.  A descrição parte de um percurso histórico do uso das tecnologias da informação para a otimização de processos de serviços nas organizações; inicia pelas aplicações monolíticas do mundo dos computadores de grande porte e segue descrevendo o modelo cliente-servidor e o seu esgotamento para atendimento de novos requisitos de dinamicidade e flexibilidade das aplicações que estão emergindo da Web.
Dessa forma procurou-se contextualizar o ambiente atual no qual novas aplicações estão sendo concebidas segundo os novos princípios de uma arquitetura de software orientada a serviço. Ou seja, como funcionalidades de negócios estão sendo encapsuladas em objetos/componentes stand-alone que são então disponibilizados em rede.

O artigo descreve brevemente os principais padrões em fase de desenvolvimento e certificação pelo W3C que suportam tais aplicações e revela aí a importância da linguagem XML. Verifica-se que esta linguagem fundamenta todas as tecnologias que permitirão a evolução dos Serviços Web, já que possibilita descrições de serviços e recursos cada vez mais semânticas.

Vê-se hoje que as grandes corporações que produzem software (Microsoft, IBM, HP, Sun etc.) aderiram à onda mundial desse mercado concernente à necessidade de padrões globais. A sua coalizão em torno dos grupos de trabalho da instituição W3C revela que enxergam os padrões como saída interessante para aumento de vendas e desenvolvimento de novos produtos de software que atenderão às demandas da nova economia. A existência de tais padrões levará à concepção de uma espécie de ecologia co-evolutiva de serviços colaborando na Web.

Com o aparecimento de ambientes que facilitam o desenvolvimento destas aplicações (como o WSDE da IBM), novas oportunidades surgirão para empreendedores. Por outro lado, pode-se já constatar o risco de uma clara tendência à monopolização dos serviços de agenciamento que constituirão os chamados marketplaces.
 

6. Notas
[1] Propositadamente assim qualificado por dizer respeito ao tratamento de dados numéricos e emissão de relatórios de totalizações, em volume massificado.

[2] World Wide Web - criado em 1984 no CERN - Laboratório de Física de Partículas, localizado em Genebra, na Suíça.

[3] Incluindo os sistemas baseados na Internet.

[4] Constituintes do chamado e-Business.

[5] Muitas vezes aplicações legadas.

[6] ver www.semanticweb.org

[7] Grandes empresas têm propostas de arquiteturas baseadas em serviços web. As propostas mais conhecidas são Biztalk da Microsoft, e-speak da HP e JINI da Sun.

[8] Ou de orientação a objetos.

[9] Ou seja, colocação em disponibilidade na Internet por um provedor de negócios.

[10] HTML é uma linguagem de estruturação de informações extremamente simples e acessível.

[11] Princípio organizacional da programação e análise estruturadas.

[12] Núcleo da teoria da orientação à objetos.
 

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Sobre os autores / About the Authors:
Marcello Peixoto Bax
Professor da Escola de Ciência da Informação da UFMG – bax@eb.ufmg.br

George Jamil Leal
Doutorando da Escola de Ciência da Informação da UFMG – jamil@eb.ufmg.br
 

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Last updated: 2008
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